sexta-feira, maio 29, 2009


é inquientante tentar regular o meu dispositivo de humor estou paralisada de medo de mim do que fiz sou mera aprendiz de mulher num mundo que me transforma a cada compasso a cada respiração profundo bater do coração apatia em queda livre rompante quero esconder este estado de euforia galopante que se quebra no sentir de uma imagem triunfante de mim mesma num infinito de tristeza que repleta de impotência nao sei sequer se sou dona ou serva dos meus actos se saio ilesa da minha própria existência.

sou tudo dentro de um nada espectacular amarga solidão, crença disforme num mágico enorme que me manipula com mil e uma estratégias enfim pobre de mim esquecida no fim de uma estação.

segunda-feira, maio 25, 2009


ela é feita de sal, de mel, ela é feita de húmus, de fel. ela é feita de todas as partículas atómicas, de todas as estrelas mortas que ainda se vêem brilhar. ela é fogo fátuo, é confettis a esvoaçar.

ela morre e renasce, morre e renasce.

ela segura as palavras para dentro da boca de olhos esbugalhados, ela explode camélias pintadas de olhos fechados.

ela é rainha e senhora no seu pântano lodoso, desenha figuras na lama, funde o seu hálito na terra, ela é passageira da vida, das tormentas, ela circula no ar, é feita de serras, o seu chão são as carcaças das raízes musgosas, o seu tecto é o manto marmóreo das cidades perdidas, o grito estridente de ciganas vaidosas.

ela é passageira pedestre, descalça, nua. ela é húmus. ela é água, é ar. ela funde-se nas fozes, no cruzamento de ecos atrozes. ela dissolve-se no mar.

terça-feira, maio 19, 2009


Caminho num espaço inventado, uma quadratura de cal que me aferrolha o pensar. Escuto-te ao longe, um silvo caliginoso, um ecoar estrepitoso, uma vertigem em espiral, fruta madura, precipício do mal.

A minha dor, o meu sangue, o meu grito, por ventura atroz, por desventura canção, clamam pelo conforto seguro da minha doce solidão.

Acerco-me do abismo, contemplando o seu pélago infinito, toda a extensão aquática brumosa, hipnotizada pelo encapelamento das ondas, pela violenta fragrância espumosa.

Arremessas-me o teu sal, códice indecifrável, enquanto te olho ao sabor da marulhada, degladiamo-nos num estrondoso penar, irrepreensível impossibilidade de amar.

quarta-feira, maio 13, 2009


Desdobraste o meu mapa infinito de veias , despedaçaste toda a tessitura de fieiras, inseminaste o teu odor, o teu toque crestado na confusão do meu organismo desordenado.

segunda-feira, maio 11, 2009


Sustenho a respiração só mais um pouco.
A núvem intensifica-se, adensa-se, corrompe e corrói-me as entranhas, estende a sua letalidade a todos os canais que arranha. Ah mas o seu sabor... o seu malicioso veneno, serve-me propósitos de antídoto! Percorre lenta e intencionalmente os trilhos do meu sistema respiratório. Como o embrião de uma criança por nascer, cresce, volúpia da minha vontade, rompe, destrói a minha ansiedade, extermina a merda da minha volatibilidade...
Quero um só momento, uma só inalação. Quero apagar a sintomática ânsia de me agarrar à razão.
Quero sorver a cinza destes dias passados. Quero cuspir o futuro dos meus passos inacabados...
Observo a cortina translúcida, esbranquiçada, que se degladia em auréolos pugilistas ao sabor da luz do candeeiro. Fugaz e efémera vai desaparecendo, lenta e penosamente, num estertor ligeiro.

terça-feira, maio 05, 2009




Solto a língua da clausura sintomática, lançada pelo antiácido automedicado.

Solto estes dedos, estas velhas articulações mofentas, ergo-as aos mais elevados olimpos.

Solto a minha goela - grito animal desajeitado, semi apagado pela promiscuidade do silêncio arrastado no tempo.
Solto esta válvula enferrujada, liberto o fluido argiloso de azedo olor, que jorra numa linha espumosa de ascensão perpétua...

Solto o peito numa explosão de colibris, prismas alados, vetustas aves das cavernas que rebentam cores no anunciado contacto com a luz.

Sorvo a claridade, nesta nova fotossíntese, revivifico os meus membros adormecidos, todo o meu ser entorpecido, e como um réptil gelado que saiu da hibernação, caminho num novo trilho, saltitando, ao longo da estação.