terça-feira, abril 27, 2010

Hoje decidi vestir-me de âmbar e,
adormecida numa longa pernada de madeira lassa,
fossilizei-me em resina de mosquitos no embalo do pranto das carcaças.

Debaixo do lençol de seiva dura, enrolada nesta gruta de esqueletos,
conservo os meus ossos encapelados em celobites
enquanto inspiro o irrespirável preto.

Sabe a hibernação de pterodactilos, este tecido de rochas penetradas.
Sabe a antigo esta caverna de visco embrutecido, onde navegam espectros de asas.

Reúno-me ao magma das árvores em luto,
abandono-me aos séculos das ruínas estampadas,
e o planger de vértebras calcificam um ducto
no dissolver do eufórbio de eras rebentadas.

segunda-feira, abril 12, 2010

Derivo num lugar longe perto de mim como que despida de mundo, numa desconstrução arquitectónica de ossos, esplendoroso mecanismo de articulações de ferro.

Uma esfinge de inseguranças momentâneas. Uma epopeia de tragos mal dados que, na persistência da memória, inflige à derradeira vontade um vazio de nove por dez.

É nesta clausura de domingos ignotos que perco o sal dos pélagos de mim, num infinito de algas celulares e no qual confino a minha rede de artérias esclerosadas. Como um cofre de proporções inimagináveis que confia um mundo de possibilidades aferrolhadas.

Sabe a ferrugem este local de poeiras vetustas, este sótão germinado de musgo e verdete.

Só quero o retorno da maré. Que me devolva o sargaço da minha vontade, esses detritos do oiro perdido no esquecimento das auroras de prata!

E o boreal das estações de vidro, o elemental vício de pássaros que povoa o espaço orlado de diamantes, são pequenas catástrofes de mar que rompem esta obnubilação da esfera ácida em que existo.

A esperança de raios feéricos numa catarse de pórticos idílicos.