quarta-feira, setembro 30, 2009

Clorofila


Imprimo as minhas raízes numa lápide de malmequeres, absorvo a seiva de nenúfares que jorra em tempestades de pólen.

A minha casca, que se vai soltando e caindo em cemitérios de sândalo, expõe a resina ao sabor das libélulas que se deixam morrer no seu visco.

Expiro ventanias mudas, agito-me num transe autístico, repetindo a minha dança enquanto solto esporos que desatam numa fuga vacilante, como um filho em idade de desmame.

Vou sorvendo o néctar barroso, à medida que os meus tentáculos se vão encapelando numa confusão de grinaldas almiscaradas, revolteando-se no bafiento manto onde se multiplicam fungos e insectos.

Contemplo a doce viridência das engrenagens de silvas, da melancólica suspensão de esqueletos caducos, da perfeição das fissuras, do colossal respirar deste pulmão de ninhos de pássaros, morte renascida no coração das folhas.

quarta-feira, setembro 23, 2009

Convalesço de um combate cujas facções são fragmentos de mim própria.

Desconstruo-me num jogo perigosamente real e no qual as peças se perdem debaixo das cadeiras.

Molho os lábios para ter a certeza que esta aridez me esgota a vida. Imagino-te murcho, descarnado, árido, à medida que me vou tocando em melodias de sangue. Mas tu existes além da minha vontade e contrarias o meu imaginário com o teu mastro de navegador - imponente na tua qualidade de corsário.

Subtraíste de mim o meu egotismo, fizeste-me abraçar o espaço onde existes na exuberância da tua hesitação.

Recolho-me em espasmos intermitentes, e nos intervalos vou-me imprimindo em ti, observando-te enquanto naufragas nos meus olhos. Morte lenta... numa doce melancolia..