quinta-feira, janeiro 28, 2010

Introdução - Ab origine

Ergue-se pálido como a morte anunciada em paredes de cal.

Lentamente, caminha de encontro à cortina de moscas que se degladia em torno de um pedaço abandonado de pão duro. Agita a pequena penumbra instalada e atira o pedaço à boca, mastigando vagarosamente enquanto fixa, desinteressado, o vazio da cadeira coxa.

Coça os testículos num acto de sonolência enquanto tenta recordar onde deixou a caixa de ferramentas. – Ela espera por mim. O meu amor tem tempo.

Cheira a urina e suor, e um travo azedo de comida vomitada vagueia em torno do ralo do lavatório.

Os cães, na rua, protestam em rugidos estridulosos, mastigando-se para se soltarem das cordas. Uma confusão de vermes revolteia-se dentro dos pratos de comida com restos de massa e carne putrefacta.

Um homem barrigudo vem à rua e atira-lhes uma pedra para depois ir embora a resmungar e a coçar os testículos.

Dentro da casa, depois de verificar a urina acastanhada e de limpar as mãos às calças, serve-se de uma cerveja morna de lata que sobrara de ontem. Enquanto engole o líquido morto, recorda a linha do maxilar a tremer, pingando suor misturado com lágrimas. Sente uma leve erecção, quando, de olhos fechados, saboreia a lembrança da proeminência dos mamilos sob a camisola demasiado fina, dos olhos sanguíneos abertos, alheios à intimidade violadora das mãos dele no seu peito que rebentava em taquicardia.


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