quarta-feira, maio 12, 2010

O menino era um todo sem fim naquela noite de cadeiras veladas
Fumava o longe vítreo da distância
- de si para si
E nos passos dos outros desaguavam muralhas.
O menino suspenso, como um lustre de pensamento
brilhava, copioso, na noite parda
E os outros eram memória, vultos ébanos de encantamento
E os outros eram tintura de engenhos de éter e fingimento
Que no menino de luz vinham sorver os cabelos
Como vampiros azuis de tumulto escarpado
Que desciam ao indiferente mancebo singelo
em tombos de milheiros de corvos esgotados.

terça-feira, abril 27, 2010

Hoje decidi vestir-me de âmbar e,
adormecida numa longa pernada de madeira lassa,
fossilizei-me em resina de mosquitos no embalo do pranto das carcaças.

Debaixo do lençol de seiva dura, enrolada nesta gruta de esqueletos,
conservo os meus ossos encapelados em celobites
enquanto inspiro o irrespirável preto.

Sabe a hibernação de pterodactilos, este tecido de rochas penetradas.
Sabe a antigo esta caverna de visco embrutecido, onde navegam espectros de asas.

Reúno-me ao magma das árvores em luto,
abandono-me aos séculos das ruínas estampadas,
e o planger de vértebras calcificam um ducto
no dissolver do eufórbio de eras rebentadas.

segunda-feira, abril 12, 2010

Derivo num lugar longe perto de mim como que despida de mundo, numa desconstrução arquitectónica de ossos, esplendoroso mecanismo de articulações de ferro.

Uma esfinge de inseguranças momentâneas. Uma epopeia de tragos mal dados que, na persistência da memória, inflige à derradeira vontade um vazio de nove por dez.

É nesta clausura de domingos ignotos que perco o sal dos pélagos de mim, num infinito de algas celulares e no qual confino a minha rede de artérias esclerosadas. Como um cofre de proporções inimagináveis que confia um mundo de possibilidades aferrolhadas.

Sabe a ferrugem este local de poeiras vetustas, este sótão germinado de musgo e verdete.

Só quero o retorno da maré. Que me devolva o sargaço da minha vontade, esses detritos do oiro perdido no esquecimento das auroras de prata!

E o boreal das estações de vidro, o elemental vício de pássaros que povoa o espaço orlado de diamantes, são pequenas catástrofes de mar que rompem esta obnubilação da esfera ácida em que existo.

A esperança de raios feéricos numa catarse de pórticos idílicos.

terça-feira, março 23, 2010

ladies night

No carmim dos teus lábios voláteis,

Na quentura dos teus seios versáteis,

Rebenta à luz uma esquálida quimera

No quente frígido da noite severa.


Caminhas em pústulas de pés descalços,

Murmuras os passos por becos incautos,

Do que falam de outiva enquanto deslizas

Em ti enegrece tanto que vigoriza.


E no degredo da noite fingida,

Expões o seio na boca tingida

Do homem anónimo que te sorve as tetas

E choras mil prantos de lágrimas secas.

segunda-feira, março 22, 2010

O ar rareia nesta clausura de pedra e vidro.

O monumento maciço escoa os aminoácidos de uma má digestão,
enquanto as secretárias permutam risinhos com as canetas que ejaculam riscos à gargalhada.

Olho este cenário, diminuída, apalpando o ar às aranhas numa busca de nada concreto até acertar na virilha do relógio digital que olha para mim com a desdita de uma anunciação vidente de moleza.

A magnificência do tédio é como um jardim amarelo, de esplendorosas árvores caquéticas, reinadas por pássaros senis moribundos, silentes e moles, que cagam por cima dos assentos de madeira aborrecidos num lento derreter de lenha.

segunda-feira, março 15, 2010

Vem com a altissonante mudez fúnebre da morte vivida em sortes de contemplação.

Recolhe a seiva dos abismos transitórios, vertida de melácicos pórticos de vida.

Dilui-se em banhos de luz, ouro e cristal, bradando a glória doirada num solilóquio cantado, como canídeos em hora de cios cozidos em lume brando.

A luz é serviçal do destino que comporta a chave de oceanos de gozo, que espuma uma mucilagem de peixes miméticos, extasiados no consolo de orgias galgadas por cavalos marinhos e confusões encapeladas de raias.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

chorrilho

quero romper esta funesta inutilidade umbilical de nós que me dilaceram de vida é um espectáculo faustoso de morte renascida em ciclos de fornicação estéril em tumbas de deusas preguiçosas. o meu peito congelado de plásticos encarapelados cáusticos tecidos de espigões que são no fundo o meu sustento de estátua informe que vomita silêncios de brandas constrições.